quarta-feira, 2 de julho de 2008

África. Modernização difícil

Este post é um aproveitamento do comentário colocado pela Amiga Manuela no post
«África. Conivência e sentimento de posse dos líderes»

A autora sugere que, ao falar do Zimbabwé e, de uma forma geral, deste grande continente, se pense bem o que é a África, a sua cultura e os seus nativos.
- Uma África de princípios tribais, onde tudo era resolvido de uma forma democrática “a seu modo” mas que resultava.
- Uma África que aprendeu os princípios democráticos ocidentais da pior forma, onde se dividiram etnias consagradas e se uniram ódios também sagrados porque ancestrais. “Dividir para reinar”, faz lembrar alguma coisa? Alguma semelhança com o presente?

Condenámos, com fundamentos humanistas o apartheid sul-africano? Provavelmente teria sido correcto condená-lo também na antiga Rodésia de Ian Smith e que terminou apenas pela força das armas da resistência negra, Mugabe entre esta, porque as “negociações democráticas” com o governo britânico não resultaram! (?)

Mugabe não quer deixar o país na mão de brancos e o outro não o queria na mão dos negros. Boa!

Uma África que foi explorada nas suas riquezas naturais e na mão de obra “dada”. Ainda hoje, se quisermos realmente saber, nos podemos aperceber do que a democracia ocidental faz por este continente e por estas gentes… Como poderemos condenar esta união fraterna entre chefes de estado? O passado e o futuro das suas gentes foi escrito há muitos, muitos anos atrás!

Obviamente que nunca poderei defender as atrocidades que se praticam em nome de um “Soba”, mas também as condeno no mundo ocidental, supostamente instruído e democrático e, também ele gerido por “Sobas” que apenas diferem dos originais na cor da pele e nas origens. (Por falar nisso, parece que a Humanidade começou em África, o que poderá explicar muita coisa!)

Finalmente, a parte económica, ou o auxílio económico. Lá diz o velho provérbio chinês: "Quando um homem te pedir de comer porque tem fome, não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar!" Pois… a verdade é que foram poucos os que ensinaram a pescar, mas demasiados os que foram lançando peixes, por vezes podres, para alimentar estas gentes. Algo de novo, no presente?

Ainda há poucos anos este país esteve na mira do Ocidente dado o seu desenvolvimento e o elevado nível de educação do seu povo. Terá sido esse interesse que provocou o descalabro? ...E eu sei?

Com mais tempo e alguma pesquisa, encontraria certamente muitos mais argumentos, mas penso que nem é necessário fazê-lo. Basta que tomemos atenção às notícias que todos os dias nos entram em casa.

Uma nota mais: o banto, etnia maioritária no Zimbabué, usa um dialecto da língua banta que significa "colectivo de seres humanos". Interessante, não?

Haveria pano para mangas, como se costuma dizer, para falar sobre este assunto mas penso que para comentário polémico já chega! :)

Manuela

NOTA: É sem dúvida um texto profundo e polémico que trago para aqui, para ter maior visibilidade, a fim de atrair mais comentários para melhor compreensão da África. Nos tempos actuais, principalmente devido à globalização e ao espírito da rentabilidade e da produtividade, os africanos precisam de modernizar o seu sistema de vida a fim de não serem aniquilados, sem apelo nem agravo, pelas forças económicas hodiernas. Mas as mudanças de tradições, rituais, usos e costumes não se conseguem de um dia para o outro, por decreto, sendo necessário tempo, acção didáctica e vontade dos actores, sujeitos ou agentes.

Como diz, as atrocidades feitas em nome do «soba» não são defensáveis e, infelizmente, elas existem como diz a notícia de hoje «Angola: FNLA denuncia detenção de dirigentes do partido» Talvez haja uma «união fraterna entre chefes de Estado», a fim de se protegerem na manutenção do Poder, por forma nem sempre isenta de pecado.

Por outro lado, as tradições étnicas conduzem a um poder central forte (mas devia ser mais humano e honesto) a fim de fazer convergir esforços colectivos do Estado, sobrepondo-se a pequenos interesses locais que não beneficiam a competitividade.

É realmente um tema que merece ser analisado com serenidade e vontade de melhorar as condições de vida das populações, principalmente as menos favorecidas e essa análise deve ser feita internamente e, também, a nível global, pelos Estados mais poderosos, sem ambições materiais, mas com o sentimento de contribuir para um futuro melhor.

2 comentários:

Arsénio Mota disse...

Recordo: muitos anos passei a culpar os Estados Unidos pela política que desenvolviam em relação à América Latina (dizíamos: «era o seu quintal»), com aquela geração espontânea de ditadores e etc.
Bem mais tarde sofri um choque. Repito, um verdadeiro choque. Adverti, tive mesmo que reconhecer, que a Europa tinha em África o seu outro «quintal». A Europa, que eu admirava pela sua cultura, pela sua civilização, por tudo. E que, com a descolonização, enfim, estamos entendidos, foi o que se sabe, desde o Congo e tudo o mais.
O respeito pelas culturas africanas é a pedra de toque, hoje e sempre, para sabermos e entendermos correctamente as questões essenciais. E sem esquecer o respeito pela dignidade humana com tudo quanto isso implica.
Concordo plenamente com a amiga Manuela: os valores culturais europeus não servem (porque não são melhores!) para sufocar os valores das culturas africanas. Não existem, creio eu, umas culturas superiores a outras, nada disso. Existem apenas culturas diferentes, com estatuto perfeitamente equiparável.
Se tivermos isto presente, estaremos avisados contra certas manobras de um neocolonislismo serôdio.
Desculpem estas expressões. Servem apenas para aplaudir e secundar o diálogo de Manuela e A. João Soares!

A. João Soares disse...

Caro Arsénio Mota,
Os seus comentários são sempre muito bem vindos, porque são novos focos de luz para deixar mais vivos os temas. São desejáveis mais opiniões sobre este assunto. Cada cultura tem as suas especificidades, apesar de hoje haver parâmetros sócio-económicos que tendem a tornar tudo igual. Cada uma deve ver até onde deve e pode ir, sem constrangimentos que tornem as populações mais infelizes do que são. Isto passa-se também na União Europeia no que se refere ao Tratado de Lisboa.
Um abraço
A. João Soares