segunda-feira, 14 de julho de 2008

Uma lição do Solidariedade

A notícia do falecimento do polaco Bronislaw Geremek, levou-me a refrescar a memória sobre um exemplo que me impressionou pela positiva, num estudo que fiz sobre os pontos altos do desenvolvimento de vários países. Dissidente do regime soviético, Geremek passou a integrar um núcleo de intelectuais colaborando com o Comité de Defesa Trabalhadores, embrião do movimento democrático na Polónia, fundado em 1976.

É nesta altura que se torna conselheiro de Lech Walesa, líder do movimento sindical que, no Verão de 1980, promoveu uma paralisação na indústria naval, que abalou o regime do general Jaruzelski e acabou por dar origem ao Solariedade, sindicato não alinhado que defendia a queda do comunismo pela via pacífica. Depois de ter estado preso durante dois anos e meio, no início de 1989, o regime comunista polaco começa a esboroar-se, Geremek estará de novo ao lado do Solidariedade e de Walesa, surgindo como um dos principais artesãos do acordo para a transição pacífica para a democracia.

Eis o resultado da pesquisa:

O movimento sindical Solidariedade, liderado por Lech Walesa, não se sentia preparado para tomar o poder. Era uma larga coligação política, um movimento de protesto, mas não um partido. Com o Solidariedade, englobando apenas um terço da Câmara Baixa, os seus líderes receavam se deviam – ou mesmo podiam – tomar o poder. O seu novo conselheiro económico era Jeffrey Sachs, o professor de Harvard cujo papel na América Latina lhe tinha granjeado o reconhecimento internacional.

Um líder do Solidariedade disse a Sachs que o movimento não tinha votos suficientes no Parlamento para fazer qualquer coisa e que a Polónia era um cabaz de problemas económicos. Sem dúvida que era um cabaz de problemas, respondeu Sachs, mas as aparências podiam ser enganadoras. A Polónia partilhava uma fronteira com a Alemanha, e estava no centro da Europa – e os polacos não eram totalmente carentes de qualidades económicas. A curto prazo, os resultados poderiam surpreender toda a gente. Isto foi o que Sachs aprendeu na América latina. Depois de horas de serena discussão, ele finalmente deu uma mensagem simples: Actuem, tomem o poder. O líder do Solidariedade deu um largo suspiro. «estou muito infeliz com esta conversa», disse, «porque penso que você está certo».

Os líderes do Solidariedade pediram a Sachs e ao seu colega David Lipton que preparassem o projecto de um programa económico para uma rápida e abrangente reforma. «E, por favor», disseram eles, «comece o projecto com as palavras ‘Com este programa, a Polónia saltará para a economia de mercado’. Nós queremos avançar depressa; é a única maneira de isto fazer sentido». Sachs respondeu que ele e Lipton iriam regressar aos Estados Unidos e escreveriam o plano. Não, disseram eles, não havia tempo para isso. Ele era necessário na manhã seguinte. Os dois americanos estiveram a trabalhar toda a noite, escreveram um projecto de plano, depois foram para Gdansk no dia seguinte para um encontro com os membros do Solidariedade a fim de o explicar. (Tradução de parte da pág270 de «The Commanding Heights, de Dabpniel Yergin e Joseph Stanislaw, Ed. A Touchstone Book, 1999.

NOTA: Na primeira leitura, quase há uma dezena de anos, à minha sensibilidade, saltaram das conclusões, a humildade e a sensatez que levou os nacionalistas do Solidariedade, conscientes da responsabilidade que iam assumir, a procurar um bom conselheiro com nome feito a nível internacional e, depois, a determinação de avançar firmemente, sem dar tempo a hesitações dos titubeantes opositores. Esta é uma boa lição que deveria ser seguida pelos nossos governantes para ultrapassarem a actual crise, com os mínimos sacrifícios para as populações.

2 comentários:

AP disse...

Mais uma vez concordo consigo a 200%!
O problema é que os nossos governantes acham-se tocados por algum poder divino, como os Reis de outrora, que os torna seres superiores e omnipotentes que não necessitam de conselheiros, seja para o que for. Excepto se esse conselheiro for um "Boy" há espera de um "Job"...
Alguma vez os nossos governantes davam parte fraca ao ponto de solicitar esse tipo de auxilio??!!
Eles só se ouvem a si próprios, mas pior é que é para se servirem a eles mesmos!

A. João Soares disse...

AP,
É como diz: a arrogância dos nossos governantes não se coaduna com a humildade.
Por ter sido a finalidade principal de um curso que fiz entre 1965 e 1968 e cujos ensinamentos tive de pôr em prática nos anos seguintes até me reformar, o que me desperta mais atenção é a forma como as pessoas encaram os problemas para encontrarem a melhor solução. Tenho aqui referido muitas vezes os métodos a seguir nessas tarefas desde o estudo da situação de que se parte, dos factores que influenciam qualquer das soluções possíveis, a comparação destas e a escolha da melhor. Depois da decisão trata-se da sua concretização, do controlo a par e passo para fazer as necessárias correcções, até se atingir o objectivo. Este caso do Lech Walesa mostra que ele não era um mero operário do estaleiro de Gdansk, mas sim um homem inteligente e sensato que conseguiu agregar à sua ideia o melhor que o país tinha e procurou conselho dos mais categorizados do mundo.
Cá em Portugal, os conselhos são procurados nos amigos que estão dispostos a receber dinheiro para apoiar a ideia que lhes é apresentada sem salientarem os aspectos menos positivos e sem mostrarem alternativas mais válidas. Os nossos governantes gastam milhões em estudos de yesmen que apenas juntam argumentos artificiais em defesa do «projecto» que mentalmente já foi decidido pelo «cliente» que lhes encomenda o «estudo». Depois vê-se o que aconteceu com o aeroporto que era para ficar na Ota e acabará, provavelmente, por ir para Alcochete.
Abraço
A. João Soares