sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A Crise financeira explicada por Frei Betto

Transcrição de texto recebido por e-mail. No fim encontram-se alguns dados biográfios do autor. Apesar da sua ideologia, a análise não se afasta muito de outras de autores de sectores diferentes.

O abalo dos muros
Frei Betto

NO PRÓXIMO ano, completam-se 20 anos da queda do Muro de Berlim, símbolo da bipolaridade do mundo dividido em dois sistemas: capitalista e socialista. Agora assistimos ao declínio de Wall Street (rua do Muro), na qual se concentram as sedes dos maiores bancos e instituições financeiras. O muro que dá nome à rua de Nova York foi erguido pelos holandeses em 1652 e derrubado pelos ingleses em 1699. Nova Amsterdam deu lugar a Nova York.

O apocalipse ideológico no Leste Europeu, jamais previsto pelos analistas, fortaleceu a ideia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panaceia para o bom andamento da economia.

Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do carácter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou. Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do "menos Estado e mais iniciativa privada". Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 biliões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injectados para anabolizar o sistema financeiro. O programa Bolsa-Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos 12 meses, o número de famintos crónicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, director-geral da FAO (Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação).

Quem pagará a factura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada. A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos colocam as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controlo político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo. Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do carácter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário económico para dar lugar à ampla rede de accionistas anónimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.

Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo carácter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações económicas e sociais.

Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste Europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O casino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas um terço da humanidade)?
Também não.

Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão - de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação - de dois terços da humanidade. São 4 biliões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 2. Há, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.

Observação: Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como Frei Betto, (Belo Horizonte, 25 de Agosto de 1944) é um escritor e religioso dominicano brasileiro, filho do jornalista António Carlos Vieira Christo e da escritora e colunista Stella Libânio. Professou na Ordem Dominicana, em 10 de Fevereiro de 1966, em São Paulo. Adepto da Teologia da Libertação, é militante de movimentos pastorais e sociais, tendo ocupado a função de assessor especial de Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República, entre 2003 e 2004.
(Para ver mais: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frei_Betto)

2 comentários:

AP disse...

"Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços"

É o que eu sempre tenho dito! Esta é que é a verdade pura e dura.

Excelente post!

A. João Soares disse...

AP,
Mas isso agrava-se quando se pretende acumular fortuna por qualquer forma, não olhando a meios o que hipoteca o futuro... até que a bolha rebenta. Muitas vezes faltam princípios e valores, ficando os comportamentos descontrolados.
Um abraço
João